Vouzela,  25 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Lino Vinhal

Lafões, não baixes os braços

21 de Fevereiro 2019

Vão nos chegando notícias de alguns projectos turísticos um pouco por toda a região de Lafões. Poucos, mas alguns. Trata-se da resposta natural a uma procura turística que cresceu nos últimos anos e que muito tem contribuído para a economia do país, hoje considerado um destino lúdico dos mais excelentes do mundo e muito particularmente da Europa. Mas trata-se também de um esforço, e alguma audácia, de pessoas empreendedoras que continuam a acreditar na região, nesta e noutras que constituem um interior vazio do Portugal rural. Dizem-nos que alguns desses projectos, uns de maior dimensão e outros de menor, são deveras interessantes e teriam uma séria probabilidade de se assumirem como iniciativas de elevada probabilidade de vingarem. A um interior a que pouco resta, a que tiraram escolas, pólos de saúde, bancos, correios, comboios e tudo o mais que constituía o mínimo necessário para fixar as pessoas, estas candidaturas a projectos turísticos seriam também uma forma de dar sentido à vida de quem fica e uma janela de oportunidade para chamar outra gente, quer enquanto visitantes quer enquanto potenciais residentes. É tudo muito simples: se se quer evitar a desertificação do interior só há um caminho: fixando quem ainda cá está e chamando quem possa e queira para cá vir viver e trabalhar. Não há outra alternativa. E quem quiser aqui viver tem de ter onde trabalhar. E quem nos quiser vir visitar tem de ter onde se alojar. Simples.

Acresce que há apoios económicos para projectos desta natureza. Há fundos comunitários a este fim destinados. Mas o Estado Português, através das Instituições responsáveis por este sector, mostra escassa sensibilidade para acompanhar a audácia desta gente, para respeitar a sua coragem em investir e o amor que sente pelo chão que constitui o lastro da sua existência. Sim, porque há gente disposta a investir, há gente que persiste em ficar, há gente que continua a acreditar. Mas o país só quer os lameiros urbanos, aqueles pedaços de terra de regadio que têm boas condições para produzirem mais com menos trabalho, onde as culturas melhor se dão, onde o risco de insucesso é menor, onde se trabalha menos e se pode ter mais. O país importa-se pouco com aquelas regiões onde viver é mais difícil. Onde o risco é maior, onde nem sempre o caldo está garantido a hora certa. Seria natural que as Instituições atrás referidas e o próprio país tivessem uma sensibilidade maior para todos os projectos, fossem eles quais fossem, que aparecem nestas zonas desfavorecidas. Seria até natural que estas ousadias empreendedoras fossem mais acarinhadas e mais apoiadas. Mas não é isto que acontece. Se um projecto destes aparecer lá para os Algarves ou outras zonas benzidas, é-lhe logo posta à frente uma passadeira vermelha, são-lhe logo dadas condições estimulantes. É-lhe quase garantido à nascença apoio económico motivante. Mas se for para as tais zonas desfavorecidas, as dificuldades nascem debaixo do chão. Em muitos casos até, ficamos na dúvida se o grau de exigência para aprovação não é superior aqui. Até por razões de natureza social, é perfeitamente defensável que o país se dispusesse a apoiar esses projectos na instrução burocrática dos respectivos processos. Mas não. Mais fácil é chumbá-los, indeferi-los. E assim fica mais dinheiro livre para os tais projectos benzidos à nascença pela preferência dos decisores. Veja-se o estado de abandono a que foi votado o Plano de Ordenamento da Barragem de Ribeiradio onde nada se faz e tanto se podia fazer. E há investidores interessados para lá. Só que não os deixam fazer nada.

Nós sabemos. O país é desequilibrado. Muito. Mas não apenas na distribuição de riqueza e das condições de vida. Também é desequilibrado, e sempre foi, na insensibilidade dos seus governantes, na sua indiferença perante as zonas pobres e suas gentes. É verdade que somos um país desequilibrado. Mas muito mais na gente acomodada que somos do que no país que temos. Eu sei. Nós sabemos. Até para nos defender nos falta cada vez mais gente capaz.

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