Vouzela,  13 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

No extremo de Oliveira de Frades: o mundo da Senhora do Livramento

2 de Dezembro 2019

O monte Olimpo, a cerca de 100 kms da cidade de Salónica, tem 2.917 metros de altura e praticamente se encontra quase todo o ano encoberto por um manto de neblina que o esconde da vista humana. Pois era justamente aí que os gregos acreditavam viverem os principais dos seus muitos deuses e deusas. Não seria necessariamente para se esconderem dos olhos dos vizinhos aquando das suas brincadeiras amorosas, pois gozavam de uma ampla liberdade moral, que hoje ainda não está ao alcance da maioria de nós.

Em outras montanhas menos sumptuosas viveriam outros deuses menores, acreditava-se. Para os gregos, como mais tarde para os romanos, no cimo dos montes, quanto mais altos e mais inóspitos melhor, viviam os deuses que já na altura não gostavam da promiscuidade com os simples humanos, mais inclinados à labuta agrícola no recôndito dos vales, nas planícies ou à beira-mar, sempre prontos a mudarem de vida se o mar os deixasse passar. Mas os deuses eram deuses e os homens simples humanos, escravizados pela dureza da vida e da labuta de todos os dias para sobreviver, coisa que não atormentava os deuses, por natureza eternos, bem instalados e melhor servidos e infinitamente felizes e de bem com a vida.

A igreja católica, bem informada da cultura clássica e também sua grande admiradora, não podia fazer de menos. Por inspiração superior, fosse da própria cultura clássica, fosse pelo espírito santo, o mesmo que a inspira a escolher os papas e a recolher os donativos  dos fiéis, sobretudo dos bem aviados da fortuna e preferentemente muito pecadores a precisar da remissão de graves pecados, a igreja católica, dizíamos nós, passou a ver os santos todos a viver, ou ao menos a preferir,  nos altos dos montes e nos pontos mais altos das cordilheiras. Por isso não teve reticências em colocar o limbo dos virtuosos no dorso dos cirros, dando em troca a profundeza dos infernos aos ímpios e amigos do demo.

Aproveitando da melhor forma esta inspiração, a igreja católica começou por se apropriar dos altares já construídos de antanho e depôs o deus ou a deusa latina e substitui-a por um santo ou santa da sua predilecção local. E à volta do altar – a ara romana – construiu a ermida, capela ou orada. E os próprios montes iam mudando de nome, conforme o orago da ermida: monte de santa luzia, monte de santa rita, monte de são barnabé, e assim por diante.

No dorso do monte sobre a povoação de Vale do Lobo, na vertente norte, e da povoação de Belazaima, na vertente sul; a oeste da freguesia de São João do Monte e a este da freguesia de Macieira de Alcoba, não havia, que se saiba, deus romano ou grego, nem santo ou santa que tivesse escolhido viver por ali. Não me admira nada, de tão inóspito, seco e agreste que é! No entanto, no espaço de um triângulo de pequenas dimensões, num lugar de eleições para as melhores lucubrações, encontram-se os limites de três freguesias: São João do Monte, Macieira de Alcoba e Paranho de Arca; três concelhos: Águeda, Tondela e Oliveira de Frades e dois distritos: Viseu e Aveiro. Sobre este monte insuspeito, confluem mundos tão diversos, entre o mar e a montanha, entre o céu e a terra!

No século dezoito as coisas vão mudar.

Como convém a estes casos, mete-se aqui uma ‘estória de amor’.

Um certo filho de abastado lavrador das terras das Benfeitas, ‘fértil povoado das pregas da serra das Talhadas’, ter-se-á enamorado de uma prima direita, prima co-irmã como então se dizia, que vivia numa afamada quinta do Carvalho, pertencente à freguesia de Macieira de Alcoba. Ora aqui está o trama de um enredo onde se cruzam simultaneamente amor e perdição, pecado e virtude. E tudo vai desenrolar-se como mandam as regras da tragédia grega.

O rapaz, de seu nome Plácido, seria um doidivanas, cavaleiro andante das terras e serras, a quem o próprio tio, cura de Destriz, teve alguma vez necessidade de esconjurar; a jovem prima, de seu nome Laura, era uma jovem bela, ‘de olhos verdes, pele rosada, ágil e mexida, porte bem talhado e elegante, um pouco arisca de génio’.

Esconjurado o pretendente e com laços sanguíneos muito próximos, o enlace dos dois era um problema difícil, cuja solução não foi digerível pela já então usual burocracia lusa. Não tem mais o jovem pretendente, que se meteu a caminho de Roma para obter a necessária autorização de casamento por parte do Papa, o chefe da igreja que já antes tinha autorizado outros casamentos em paridade de circunstâncias quando tal aprouvera aos interesses de estado, e pessoais. E este caso não era para menos! E o facto é que o indomável apaixonado conseguiu tudo isso: o fim da esconjura e a autorização de casamento entre os dois primos carnais.

Com os papéis em mão da devida ‘nihil obstat’, o jovem enamorado aprontou-se a regressar a Portugal, o que fez por barco.

Mas outros deuses não terão apreciado de igual modo o desfecho do caso e vai daí a intervenção do deus Neptuno, que mandou açoitar o barco de regresso com furiosa tempestade em meio do oceano, a ponto de todos desesperarem pela vida.

Foi então que passou pela cabeça  do doidivanas, que já não o era tanto, pedir a protecção de Maria, a santa das santas e mãe de Jesus, a quem prometia, se conseguisse chegar a bom porto são e salvo, levantar um altar  no cimo do monte de onde se podia ter uma vista deslumbrante até à Barra de Aveiro, por sobre uma paisagem de rara beleza natural,  sob a designação de Senhora do Bom Despacho e do Livramento.

Salvou-se o homem e cumpriu a promessa. Por acaso já não encontrou viva a sua amada que, de saudades e temores, entretanto se finara em plena juventude.

O milagre do seu regresso nas condições relatadas a todos causou notável admiração e, desde logo, muitos romeiros peregrinaram ao monte da Senhora do Bom Despacho e do Livramento em busca do milagre para as suas vidas. Em pouco tempo, os romeiros multiplicaram-se no cimo do monte no dia exacto do aniversário da mãe de Jesus, o dia 8 de setembro do calendário gregoriano, precedido, como de costume, das festas da noite do dia 7. Nesta noite, que haveria ser de penitência e oração, na verdade eram uma noite de grande festa, agora que as colheitas e o S. Miguel haviam terminado e o povo já podia gozar de algum repouso das suas mil preocupações agrícolas. Músicos e fogueteiros rivalizavam em mostrar as suas melhores potencialidades, nessa noite de folia, a que geralmente os partidários de cada grupo davam quitação com grandes e fortes batalhas campais, onde os alcofrenses mostravam grande valentia e habilidade.

Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, eram ainda muito vigorosas as festas que ali se realizavam. A baixa da natalidade, a emigração e as guerras do ultramar acabaram por dar a primeira grande paulada a uma romaria de grande tradição.

Depois de algumas décadas de declínio, este ano pude assistir a uma revivificação da romaria, com muita gente local mas também muitos romeiros de fora, nomeadamente da zona das Talhadas e Benfeitas, do Caramulo e de Tondela, do Porto e de Lisboa, e sobretudo da zona de Águeda, estes com grandes embrulhos que deixavam ver de fora as pernas dos leitões assados à moda. E isto sim, me parece uma boa promessa de revitalização da romaria. Vamos continuar a ver, se a vida no-lo permitir e o apetite acicatar.

E, claro, já me ia a esquecer, o monte hoje se denomina de Monte da Senhora do Bom Desfecho e do Livramento.

António Vinhal

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