Vouzela,  13 de Dezembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

… E o meu carvalho secou

1 de Dezembro 2019

Claro que o carvalho não era meu, em termos de propriedade. Do cerne naquela altura havia na minha casa apenas a determinação dos meus pais, o esforço com que rifavam o terreno pedregoso para plantar meia dúzia de couves, tão galegas que ainda hoje mantêm o nome, ainda que “couve alta” lhes chamem. Mas esse querer, essa vontade férrea de meus pais para criar os filhos, era mais granítica que lenhosa, era feita da alma arrancada do peito para que os putos não passassem fome, essa vadia que tantos dias batia aquela porta.

Mas não sendo meu aquele carvalho, também me pertencia. Era meu também. Ele fora tanta vez sombra aconchegante, vezes sem conta ponto de encontro entre miúdos vindos daqui e dali, árvore tutelar de um espaço que era praça, campo da bola, palco de festas, recreio de brincadeiras… Era o carvalho de Mamoa, já velho na minha meninice, mas verdejante ainda em cada Primavera, amigo e companheiro das tertúlias de criança, laboratório onde as carochas (hoje desaparecidas) mourejavam pelo seu sustento, covil esventrado onde os avigoiros se comportavam como senhores do convento esburacado no tronco.

Foi à sombra do também meu carvalho que pela primeira vez vi uma camioneta, a primeira chegada às portas de Adside, ali trazida pela visão de um empresário que muito mais longe teria chegado se o seu tempo tivesse sido noutro tempo. Era o ti Zé Dias, de Adside, pai de filhos que ainda o são, pedra angular de uma família que se multiplicou Póvoas além. Fora já ele que trouxera a primeira motoreta que, ali chegada, não sabia como parar e calar. Foi ele que trouxe, mais tarde, a primeira camioneta, tenho na ideia uma Bedford mas que não garanto. Camioneta que chegou antes da estrada, muito antes, naquela tarde de terça-feira em que a professora nos deixara sair mais cedo para irmos ver a primeira camioneta da nossa vida. Trouxe-a, conduzindo-a aos solavancos do caminho esburacado, o Américo, filho desse tal Zé Dias que ainda hoje se recordará desse primeiro dia em que a camioneta se quedou junto daquele carvalho, espaço de que foi fazendo estaleiro, garagem, oficina, por uns bons tempos.

Foi à sombra do também meu carvalho que eu e os meus colegas – Vales, Areal, Coelhoso – esventrámos câmaras de ar que ali aguardavam remendo para recuperação e de que nós, qual presa acabada de descobrir por animal faminto, fazíamos tiras elásticas para as nossas atiradeiras, hoje fisgas, a mais agressiva das armas que nos era permitido manejar para além do cabo da enxada, mais agressiva nos calos que fazia nas mãos do que no proveito que gerava no solo que esventrava. Foi ali, à sombra do carvalho também meu, que fui criança e fui menino, fui aluno e companheiro, fui rebelde e fui afoito. Foi ali, à sombra do carvalho que também era nosso, que jogámos o pião algumas vezes, riscámos no chão os jogos que havíamos aprendido uns com os outros e para os quais éramos mais espertos do que para os “deveres de casa”, essa velha teimosia a que ainda hoje algumas Escolas recorrem para fazer perder aos alunos o encanto que o aprender deveria trazer consigo, se dele não fizessem castigo e exercício de autoridade. Foi por ali que fomos empurrando a fome lá mais para a noite, altura em que o caldito deslambido já dispensava o naco de pão que nem sempre havia e, quando havia, era rateado pelos filhotes que, casa abaixo, casa acima, entoavam o “quero pão” com os acordes que tanto feriam os ouvidos da mãe que sabia pão já não haver.

Reparei há dias. O meu carvalho, o carvalho da minha infância, o carvalho companheiro e cúmplice, secou. O fogo, vindo Urgueira abaixo, Albitelhe acima, abraçou-o com o calor das chamas assassinas. Não o terá feito por mal, talvez a fugir de si próprio. Mas o carvalho, o meu carvalho de menino, não gostou e ficou triste. Cada vez mais triste. Cada vez menos verde. Cada vez menos frondoso. E partiu. Consciente de que para nós, gerações seguidas, fora ponto de encontro e fora sombra. Fora amparo e confidente. Levou na memória aqueles bailaricos do 15 de Agosto, proibidos pela Igreja na altura e preparados à sucapa pelos jovens de então.

O meu carvalho partiu. E quando partiu, nem aí revelou os amores ali nascidos e de que fora testemunha, muitos deles bem sucedidos e de outros que não resistiram às ondas do mar sobre as quais o noivo, a caminho dos Brasil e outras Américas, hesitava entre o ir e o voltar, baloiçava entre o amar e o esquecer, receoso de um caminho que, sendo sonho e sendo esperança, já fora para muitos outros estrada de não regresso.

Não cortem ainda, por favor, o carvalho que foi meu chão. Morreu de pé. Deixem que de pé se despeça.

Lino Vinhal

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com